Total visualizações

18 dezembro 2015

Livros perigosos

Na discussão do livro 1984, os intervenientes defenderam que sem memória não existimos;
aqui fica, pois, um testemunho da apresentação e discussão de leituras escolhidas pelo 12ºA.

Atenção: muitos destes livros constituem um grave perigo para a saúde dos conformistas, 
dos indiferentes, dos egocêntricos, dos que «Vive[m] porque a vida dura»

A alegoria
- um mundo imaginário, para nos ajudar a pensar no mundo real -

«Não podemos abdicar do valor da liberdade!»
«Não podemos abdicar da memória: sem memória não existimos.» 
«A nossa liberdade ou a nossa escravidão começa no pensamento» 
- ideias defendidas pelos leitores, na discussão sobre o livro 1984

A Lenda e  a História 
- porque as coisas nem sempre são o que parecem... -
A ficção científica 
- maneiras presentes de pensar o futuro, que é uma das formas de repensar o presente - 

Alguns dos livros que lemos e discutimos

"O sistema era simples. Toda a gente compreendia. Os livros deviam ser queimados, juntamente com as casas onde estavam escondidos...
Guy Montag era um bombeiro cuja tarefa consistia em atear fogos, e gostava do seu trabalho. Era bombeiro há dez anos e nunca questionara o prazer das corridas à meia-noite nem a alegria de ver páginas consumidas pelas chamas... Nunca questionara nada até conhecer uma rapariga de dezassete anos que lhe falou de um passado em que as pessoas não tinham medo. E depois conheceu um professor que lhe falou de um futuro em que as pessoas podiam pensar. E Guy Montag apercebeu-se subitamente daquilo que tinha de fazer... b
De implicações assustadoras, a forma como reconhecemos o nosso mundo naquele que é retratado em Fahrenheit 451 é impressionante." (Plano Nacional de Leitura|Livro recomendado para o Ensino Secundário).


"Toda a história roda em torno do astronauta Mark Watney, que no meio do caos gerado por uma inesperada tempestade em Marte é deixado para trás no planeta vermelho, com os seus colegas de missão a julgarem-no morto e a partirem na única nave presente no planeta, a Hermes. Completamente sozinho no planeta, é graças ao apego ao pormenor e ao detalhe que consegue manter-se vivo, alimentado pela esperança de que um dia alguém o resgate; um dia, sim, porque uma missão a Marte demora meses a ser concluída, entre preparativos e a própria viagem. E a nave que o abandonou não pode simplesmente fazer inversão de marcha. Assim, para se manter vivo o máximo de tempo possível, Watney tem de preparar minuciosamente todos os passos dados, pois a mínima falha pode revelar-se fatal. (...)Improvisando com o que tem à mão, vai encontrando soluções para o seu dia a dia, mas, dado que se encontra num ambiente «hostil», são inúmeros os contratempos com que se depara.  (Ler artigo completo)


Baseado em documentos históricos genuínos e fundamentalmente no trabalho do historiador Augusto Mascarenhas Barreto (The Portuguese Columbus: Secret Agent of King John II, 1992, McMillan Edition), (...) O Codex 632 conta a história de uma investigação em torno da possibilidade de Cristóvão Colombo ser português, apoiando-se em lacunas do percurso do navegador cuja identidade e missão continuam a suscitar dúvidas.

"O Codex é a história dos Descobrimentos contada através do mistério da identidade do Colombo. Pode-se gostar ou não gostar, mas se se olhar de boa fé percebe-se que nunca a história dos Descobrimentos foi contada daquela maneira, quase detectivesca." José Rodrigues dos Santos (ler entrevista)


     -----------------------A História
 

"Muitas histórias correram sobre a humilde mulher que, em 1385, numa aldeia perto de Alcobaça, pôs a sua extrema força e valentia ao serviço da causa nacional, ajudando assim a assegurar a independência do reino, então seriamente ameaçada por Castela. 

É nos seus lendários feitos e peripécias, contados e acrescentados ao longo dos tempos, que se baseia este romance, onde as intrigas da corte e os tímidos passos da rainha- infanta D. Beatriz de Portugal se cruzam com os caminhos da prodigiosa padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, símbolo máximo da resiliência e bravura de todo um povo." 




"Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas."  ( Plano Nacional de Leitura, Livro recomendado)
 "(...) afigura-se subtil e inteligente o modo de empurrar o leitor para o verdadeiro tema deste romance, que não é a caça (essa “alucinada vertigem” que acontece nas “costas da razão”), nem o receio da força bruta animal ou a “gestão das coisas invisíveis”, mas a trágica e “infindável” guerra entre homens que sempre abusaram do seu poder e mulheres educadas para a renúncia."
José Mário Silva, Expresso




"Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico." (In Companhia das Letras)

"1984 oferece hoje uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização em que passaram a assentar as democracias capitalistas. A electrónica permite, pela primeira vez na história da humanidade, reunir nos mesmos instrumentos e nos mesmos gestos o trabalho e a fiscalização exercida sobre o trabalhador. O Big Brother já não é uma figura de estilo - converteu-se numa vulgaridade quotidiana." In Wook

(Plano Nacional de Leitura, Livro recomendado para o Ensino Secundário)


15 dezembro 2015

Subordinadas

Como ainda houve falhas (felizmente, poucas) no Exercício, regista-se, pela milionésima vez, o quadro da Subordinação, que já todos deviam ter passado no caderno...
Conhecimento explícito da língua portuguesa
Quadro-síntese da SUBORDINAÇÃO

Frase subordinante – parte da frase complexa que exclui todas as subordinadas nela encaixadas
Ex. O rapaz que conheci na praia estuda na tua escola
(subordinante: “O rapaz estuda na tua escola”
Frase subordinada – frase encaixada em outras frases. A frase subordinada é elemento constitutivo de outra frase. Pode preencher a função sintática de sujeito, complemento ou modificador (do nome, do grupo verbal ou da frase)
Frases subordinadas substantivas
Subordinada substantiva completiva
A Joana disse que não vinha à aula.
Subordinada substantiva
relativa sem antecedente
Quem semeia ventos colhe tempestades.
Frases subordinadas adjetivas
Subordinada adjetiva relativa com antecedente
explicativa
O aluno, que sempre teve boas notas, ganhou uma bolsa de estudo.
restritiva
Os escritores que foram premiados são muito jovens.
Subordinada adjetiva Gerundiva
(quando desempenham a função de modificadoras do nome)
Os manuais apresentando erros não devem ser adotados
Frases subordinadas adverbiais
Subordinada adverbial temporal
Quando tocou para a saída, todos ficaram na sala.
Subordinada adverbial causal
O professor adiou o teste, porque os alunos não estavam preparados.
Subordinada adverbial concessiva
O Pedro não é capaz de pedir nada, embora precise de ajuda.
Subordinada adverbial consecutiva
Falou tão depressa que não percebemos nada.
Subordinada adverbial comparativa
O Pedro escreve tão bem como fala.
Subordinada adverbial final
Fica connosco para podermos falar da viagem.
Subordinada adverbial condicional
Ficava muito contente se acabasses o trabalho a horas.









Créditos da imagem: Poesia visual de Adolfo Montejo Navas

Ponto e vírgula

Para os casos de .......... e ........ (you know...), deixo informação adicional sobre a PONTUAÇÃO. Toca a passar para o caderno!
O quê?...Qual vergonha, vergonha é continuar a perder imensos pontos em teste por causa de um problema solucionável!

As boas gramáticas e os bons prontuários (sim, há na Biblioteca!) têm isto e muito mais.

O dicionário terminológico refere-se à vírgula do seguinte modo:

Sinal de pontuação utilizado em vários contextos, como por exemplo a intercalação de orações subordinadas adverbiais numa frase (i), a intercalação de um modificador entre um verbo e o seu complemento (ii) ou após um advérbio conectivo em início de período (iii).

Exemplos
(i) Os rapazes, quando chegaram a casa, fartaram-se de comer.
(ii) Os rapazes falaram, com muito maus modos, à avó.
(iii) Os rapazes estão cansados. Porém, continuam a correr.

  • Vamos especificar alguns casos
VÍRGULA OBRIGATÓRIA
1. Use a vírgula para separar elementos sequenciais ou termos de uma enumeração
Ex:
Comprei livros, cadernos, uniforme, borrachas e lápis.
Como regra geral, não se usa vírgula antes de “e”. Há um caso específico em que se usa (ver adiante).
Um outro exemplo:
A sua fronte, a sua boca, o seu riso, as suas lágrimas, enchem-lhe a voz de formas e de cores… (Teixeira de Pascoaes)

2. Use a vírgula para separar o vocativo
O vocativo é sempre separado por vírgula, quer seja em posição inicial, quer ocorra no meio ou no final da frase, como nos 3 exemplos seguintes:

Manuel, vai abrir a porta.
Posso afirmar-lhe, minha Senhora, que o seu irmão não passou por aqui.
Vem cá, João.

3. Use a vírgula para isolar o nome de um lugar quando se escreve a data
Ex: Torres Vedras, 12 de junho de 2013.

4. Use a vírgula para separar explicações intercaladas no meio da frase
Assim, fica entre duas vírgulas qualquer palavra, expressão ou frase intercalada numa oração:
Exs.
Os portugueses, claro, gostam de praia.
Os Ingleses, não haja dúvida, constituem um povo essencialmente prático.
Amar as árvores, disse um grande homem, é amar a terra.

Afinal, as explicações que interrompem a frase são mudanças de pensamento e devem ser separadas por vírgula.
Outros exemplos:
Pedro, o aluno que trazia o computador, não veio hoje.
Dá-se uma explicação sobre quem é Pedro. Se tivéssemos que classificar sintaticamente esse elemento, seria um modificador apositivo.
Eu e tu, que somos amigos, não devemos zangar-nos por tão puco.
O trecho destacado explica algo sobre “Eu e tu”, portanto deve vir entre vírgulas.
A classificação do elemento entre vírgulas seria oração subordinada adjetiva relativa, com antecedente, explicativa.


5. Use a vírgula para separar o lugar, o tempo ou o modo que vier no início da frase.

Quando um tipo específico de expressão — que indique tempo, lugar, modo e outros — iniciar a frase, usa-se vírgula.
Exemplos:
Hoje, o sol está de rachar!

No primeiro capítulo da obra, D João V faz a promessa da construção do convento.

De um modo geral, não gostamos de pessoas estranhas.
“De um modo geral” é sinónimo de “geralmente”, adv. de modo, por isso vai vírgula.


6. Use a vírgula para separar orações independentes

Orações independentes são aquelas que têm sentido, mesmo estando fora do texto.

É o caso das coordenadas assindéticas (o «e» não está lá mas as orações são - na mesma - coordenadas):
Abriu a mala, retirou uma carta, estendeu-a ao advogado.

Nesse exemplo, cada vírgula separa uma oração independente.


7. Use a vírgula depois da partícula não no princípio da oração, se refa frase não for negativa

Não, é impossível satisfazer o seu desejo. (diferente de «não é possível...)

Não, foi inacreditável. (diferente de «não foi inacreditável...)

Emprega-se também a vírgula depois de sim, no princípio de qualquer oração.

Sim, vou ao cinema.
Sim, depois falamos.

8. Use a vírgula quando os sujeitos de duas orações interligadas são diferentes.

Como regra geral, não se usa vírgula antes de “e”.

Todavia, usa-se quando a frase depois do “e” se refere a uma pessoa, coisa, ou objeto (sujeito) diferente da que vem antes dele. Assim:

O sol já ia fraco, e a tarde era amena. (Graça Aranha)

Note que a primeira frase se refere ao sol, enquanto a segunda fala da tarde. Os sujeitos são diferentes. Portanto, usamos vírgula.
Outro exemplo:

A mulher morreu, e cada um dos filhos procurou o seu destino (Fernando Namora)

A primeira oração diz respeito à mulher, a segunda aos filhos.


9. Use a vírgula com os conetores porém, todavia, contudo, no entanto, portanto, por conseguintes e por consequência.
Estes elementos podem aparecer:
- seguidos de vírgula, quando se encontram no início do período ou depois de /;/

Porém, até os bravos têm medo.
Tenho vontade de viajar; porém, não tenho meios.

- entre vírgulas, quando se encontram após um dos termos da oração a que pertencem.

Esse objetivo, porém, não é facilmente alcançável.

10. Use vírgula antes de quem, se esta partícula é acompanhada de preposição.

Meus pais, a quem muito quero...
Aquela filha, a quem tanto se dedicou, foi ingrata.
João, de quem recebi tantas provas de estima...


VÍRGULA ...nem sempre

Há casos como o que ...em que tens de ver primeiro. Assim:

Com o que
Antes do pronome relativo que, apenas se coloca vírgula se este introduz uma oração explicativa.
EX.
Encontrei ontem o teu primo António Maria, que me ofereceu uma bebida.
Restavam apenas alguns soldados, que combateram heroicamente.
O Pedro, que é simpático, ajudou-me a levar os caixotes.

(Mas não há /,/ em : Não sei se estamos longe da terra a que nos dirigimos.| Este é o lugar histórico em que Vasco da Gama embarcou.|Um rapaz que é simpático ajuda sempre os colegas)



VÍRGULA FACULTATIVA

Existem casos em que a vírgula é opcional?

Se o elemento referente a tempo, modo, lugar etc. não for uma expressão, mas sim uma palavra só, então a vírgula é facultativa. Vai depender do sentido, do ritmo, da velocidade que você quer dar para a frase.
Exemplos:
Depois vamos sair para jantar.
Depois, vamos sair para jantar. (Dá mais destaque ao «depois»)

Geralmente gosto de almoçar na escola.
Geralmente, gosto de almoçar na escola. (Supõe que se abriu uma exceção ao que é habitual)




NÃO SE USA VÍRGULA

Não se usa a vírgula!
- Entre o sujeito e o predicado:
O João, gosta de comer pizzas. *
A Alice, a Maria e a Luísa, querem ir ao cinema.*

Corretamente:
João gosta de comer pizzas.
A Alice, a Maria e a Luísa querem ir ao cinema.

NÃO SE USA VÍRGULA
- Entre o verbo e os seus complementos diretos ou indiretos.

As pessoas mal-educadas não podem merecer a estima de ninguém.
Emprestei o livro de Geografia ao professor.

Complementos do nome



Voltamos aos complementos do nome. 
Sabemos que há controvérsia e que muitas das vossas gramáticas evitam 'airosamente' a apresentação de uma bateria significativa de exemplos. 
Ainda assim, e na sequência do exercício, aqui fica.
Complemento do nome
 “Constituinte do grupo nominal que se encontra à direita do núcleo (o nome) e é selecionado por ele. O complemento do nome pode ser um grupo preposicional (frásico ou não frásico) ou um grupo adjetival.”
  • Quando o nome é seguido de uma preposição (a mais frequente é «de»), podemos ter:
+ um nome comum. Ex: umas calças de pele;
+ um nome próprio. Ex: as calças do João;
+ um pronome. Ex: os amigos deles;
+ um advérbio. Ex: o jornal de ontem;
+ um infinitivo. Ex: a alegria de viver.

  •   O complemento do nome pode ter sentidos muito diferentes. Ele pode exprimir:
- a matéria: uma bolsa de seda;
- a posse: a casa de Maria;
- a origem: a gastronomia de Portugal; a gastronomia portuguesa
- a causa: um gesto de cólera;
- as características: uma mulher de negócios;
- o tempo, a estação: promoção de verão;
- a duração: um minuto de silêncio;
- o assunto, o autor: um quadro de Picasso, um romance de Eça;
- o objeto de uma ação: o aluguer de um carro.
- a direção: o comboio para Madrid.
- o uso: uma colher de chá;
- o conteúdo: um copo de água; um pacote de leite;
- a relação todo/parte: a porta de casa.


Atenção:
·       Os modificadores podem ocorrer em cascata, ao contrário dos complementos
(p. ex., «um estudante que vive em Évora de cabelo comprido», mas *«um estudante de linguística de literatura» (agramatical ).
·       Os complementos só mostram compatibilidade com os nomes que os selecionam
(p. ex., «um estudante de linguística», mas *«uma criança de linguística»).
·      
Os complementos precedem os modificadores se forem da mesma categoria sintática (p. ex., «um estudante de linguística de cabelo comprido», mas *«um estudante de cabelo comprido de linguística»). No nosso caso, «paredes de vidro de qualidade»

In Ciberdúvidas da Língua Portuguesa - https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/os-complementos-e-os-modificadores-restritivos-do-nome/17039



13 dezembro 2015

Livros que são tesouros

Exemplar de Os Lusíadas (1572) existente em Austin, Texas 

Na sequência do texto informativo que trabalharam no exercício, foi possível localizar o artigo no Jornal PÚBLICO (ver artigo completo). Assim, percebe-se melhor a questão das «marginálias» e do interesse que este exemplar desperta. Particularmente interessante é a imagem que acompanha o artigo e a referência ao escritor Jorge de Sena, que na altura da compra era professor de Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.


Camões no Texas

O centro de investigação Harry Ransom da Universidade do Texas em Austin possui um dos raros exemplares da primeira edição de Os Lusíadas , impressa em 1572, em Lisboa. Camonianos defendem que este exemplar pertenceu ao poeta português, sendo por isso conhecido como o “de Camões”.
 
            Ler e examinar um dos raros exemplares sobreviventes da primeira edição de Os Lusíadas – poema épico de Luís de Camões (1524?-1580) –, impressa em 1572, é uma cerimónia quase religiosa, como se tivéssemos ido parar a uma cena do filme O Nome da Rosa .
Esta experiência pode ser realizada no Harry Ransom Center (HRC), Centro de Investigação de Humanidades no campus da Universidade do Texas em Austin (UT Austin), onde está o exemplar que dizem ter pertencido ao próprio Camões e é um dos mais importantes entre os 34 que existem espalhados por três continentes.
             Antes mesmo de entrar no edifício do HRC, o visitante já tem, do lado de fora, uma ideia do incrível acervo que o edifício abriga. Nas fachadas de vidro estão impressas várias imagens – retratos de escritores e textos dactilografados – que evocam o arquivo. Lá dentro, na biblioteca, no segundo andar do edifício, quem quiser ver a primeira edição de Os Lusíadas tem de criar uma conta de investigação, na página Web do HRC, e assistir a um vídeo de dez minutos para aprender como se devem manusear livros raros e quais os procedimentos de segurança.
            Qualquer pessoa pode ver a obra, mas estes requisitos são obrigatórios para se ter acesso à sala de visualização. É também recomendável contactar a instituição com 24 horas de antecedência, porque o livro está guardado num cofre.
             Depois de feita a requisição da obra, uma das bibliotecárias aproxima-se, segurando com as duas mãos uma caixa vermelha de capa dura. Com muito cuidado desata os laços, abre a caixa, põe-na sobre a mesa, retira o livro e pousa-o sobre suportes revestidos de veludo. O visitante pode então folhear o livro, tentar ler as marginálias (comentários escritos à mão nas margens), com a ajuda de duas lupas, identificando as diferenças ortográficas em relação aos dias de hoje. Céu era ceo, muito era muy, e as palavras hoje terminadas em ão acabavam em am. Não era nam.
            A experiência de ver o exemplar de Os Lusíadas, considerado o mais importante dos que existem por conter manuscritos de uma testemunha ocular da morte de Luís de Camões, é entendida por alguns como um mapa literário para regressar ao passado. A jornalista brasileira Heloísa Aruth Sturm, quando era estudante de mestrado na Universidade do Texas, em 2010, analisou este exemplar durante um semestre para a disciplina de História do Livro. Todos os alunos tinham de escolher um livro raro, analisá-lo e escrever um artigo académico. Interessada em literatura colonial, Heloísa soube desta cópia de Os Lusíadas através do seu orientador, Ivan Teixeira, investigador brasileiro e na altura professor na UT Austin. A aluna ia pelo menos uma vez por semana ao HRC para analisar Os Lusíadas. Tinha medo de danificar o livro, por isso usava sempre luvas para o folhear. Sentia-se “num convento em pleno século XVI”. A paranóia era tão grande, diz ela, que “às vezes, até tomava cuidado para não ficar respirando em cima do livro”.

A edição “de Camões”
          No entanto, não são muitos os que vivem esta experiência literária de Heloísa. Richard W. Oram, curador de livros raros do Harry Ransom Center, desde 1991, diz que este exemplar de Os Lusíadas raramente é requisitado. Porém, a sua aquisição pela Universidade do Texas tem sido de extrema utilidade para produção académica mundial sobre a obra de Camões.
           K. David Jackson, director dos estudos de Português, na Universidade de Yale, foi professor na Universidade do Texas em Austin, entre 1974 e 1993. Conta ao PÚBLICO, por email, que a universidade já tinha adquirido o livro quando ele foi contratado por esta instituição texana. E quando deu um seminário no Harry Ransom Center usou o livro como recurso. Na altura, mostrou-o à filóloga italiana e especialista em literatura medieval portuguesa Luciana Stegagno Picchio (1920-2008) e “ela ficou fascinada” com os comentários escritos à mão nas margens do livro, a marginália. Em 2003, o investigador publicou um CD-ROM, Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572, com 29 exemplares da primeira edição, de várias bibliotecas internacionais.
O trabalho foi apresentado na Fundação Luso-Americana, em Lisboa. Na introdução textual desse CD, K. David Jackson explica que este exemplar foi essencial e de extrema influência para a academia, por causa das suas qualidades raras, como o “comentário marginal assinado por frei Joseph Índio, padre do Sul da Índia, convertido ao cristianismo, que Camões deveria ter conhecido, que era pelo menos 30 anos mais velho do que ele, tendo chegado a Lisboa em 1501 com a frota de Cabral.” O que atesta a relação entre esse frei e Camões são os manuscritos nas margens nas primeiras páginas do volume. Todas estes dados levaram os investigadores a referir-se a este exemplar como "de Camões". Dizem que o poeta o teria consigo, quando frei Joseph o terá assistido no leito de morte.

“De Camões” para os Estados Unidos
             Parte da marginália é em espanhol, incluindo traduções de palavras portuguesas. Este facto permitiu aos investigadores concluírem também que este exemplar pertenceu ao “Convento de Carmelitas Descalços de Guadalcázar”, em Espanha, da ordem a que pertencia frei Joseph Índio desde que chegou a Portugal. Tudo indica que o padre levou consigo o exemplar de Portugal para Espanha ainda no século XVI, logo após a morte de Camões, como explica K. David Jackson no CD-ROM. Diz ainda o investigador americano, no seu artigo de introdução ao CD-ROM, que no século XIX o livro chegou às mãos do diplomata britânico John Hookam Frere (1769-1846), em Sevilha, e, em 1812, foi doado para a Holland House, onde permaneceu durante mais de um século, com excepção de um empréstimo de curta duração a Sousa Botelho, morgado de Mateus, que o usou para preparar a sua própria edição de Os Lusíadas, publicada em Paris em 1817.
               Foi na década de 1960 que o livro foi levado para os Estados Unidos, tendo-se então iniciado negociações para a sua compra pela Universidade do Texas. K. David Jackson conta-nos que em 1966 o poeta e dramaturgo português Jorge de Sena (1919-1978), na época professor de Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, apanhou o autocarro em Madison, Wisconsin, onde morava, e viajou durante cerca de 20 horas para chegar a Austin, capital do Texas, para avaliar o exemplar e dar consultoria aos curadores do HRC.   (...)  Aí descobrimos que a obra de Camões custou à universidade um pouco mais de cem mil dólares, incluindo seguro e transporte, valor que corresponderia hoje a cerca de 600 mil dólares.

O dilema das duas edições
                O exemplar adquirido pela Universidade do Texas tem sido de extrema relevância para os investigadores por ter ajudado a desmistificar as supostas duas edições de 1572. A pesquisa sobre os problemas associados à primeira edição tem-se estendido por mais de três séculos, escreve o investigador de língua e cultura portuguesa na Universidade de Yale K. David Jackson na introdução textual do CD-ROM.
             Tudo começou em 1685, quando um grande comentarista de Os Lusíadas observou pela primeira vez que a imagem do pelicano no frontispício (ou folha de rosto) estava virada em alguns exemplares para o lado esquerdo do leitor, e em outros para o lado direito. Observações posteriores identificaram outras diferenças que pareciam estar associadas à posição do pelicano, como a leitura do sétimo verso da primeira estrofe, que começa “E entre” no caso do pelicano “à esquerda,” e “Entre” no caso do pelicano “à direita”. As duas edições ficaram conhecidas como “Ee” e “E”. O exemplar guardado no Harry Ransom Center classificar-se-ia como “E”. Mas K. David Jackson refere-se a estas duas edições como um mito que se fixou no imaginário português.
               Desde então, vários investigadores têm-se dedicado a responder à questão: se há duas edições diferentes, duas impressões do mesmo impressor, ou ainda uma edição autêntica e outra falsa(...).
                Conforme os escritos académicos de K. David Jackson, Os Lusíadas é o décimo sexto título publicado pela tipografia e o sexto em língua portuguesa. Foi impresso por António Gonçalves, que tinha oficina própria, em Lisboa, na Costa do Castelo.
             Apesar de não ser muito usado, este volume pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura.
***

11 dezembro 2015

Pensar as leituras

Quem precisar tem o guião de apresentação das leituras no www.asas-da-fantasia.blogspot.pt

www.asas-da-fantasia.blogspot.pt

10 dezembro 2015

Os Lusíadas somos nós

Não percam os restantes vídeos da série CAMÕES, HOJE
Independentemente da altura em que entregaram a versão revista, foram agregados em sequência, nos dias 1 e 2 de dezembro, para melhor leitura :
 Quem não sabe arte...
O nosso lugar na Europa
O suor da servil gente
O valor da Fama
 Um obrigada a todos os grupos, pelo empenho.

08 dezembro 2015

Ler

                                                                                          Rene Magritte

 [Assim como] há pessoas que nunca se apaixonam, (...) e há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
Rene Magritte
 A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.

Ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. “Os Lusíadas” de Camões, por exemplo.
Claro que continua. Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante.

Alberto Manguel   
(ensaísta, escritor, autor de “Uma História da Leitura", best-seller mundial). In Jornal PÚBLICO http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alberto-manguel-estamos-a-destruir-o-valor-do-acto-intelectual-1445234


ESTÁ NA HORA DE APRONTAR AS LEITURAS 
- PARA PARTILHAR - ORALMENTE E/OU POR ESCRITO

Quem quiser participar no Concurso Nacional de Leitura (1ª fase - escola:1ª semana de janeiro), pode contar com a minha ajuda. Já sabem que os livros para a prova do Secundário são 



 Já agora, que há listas para tudo - e desde que se não levem demasiado a sério podem ser úteis - fica uma das muitas listas de os-100-melhores-livros-de-todos-os-tempos