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30 novembro 2015

"A última nau" (exame)


 MENSAGEM
Para os que só analisaram por escrito "As Ilhas Afortunadas", aqui fica a outra prova trabalhada em aula. 
Lê primeiro o poema e todo o questionário; depois, sublinha o texto e regista tópicos de resposta.
Consulta os tópicos de resposta previstos pelo GAVE. Repara nos níveis de exigência: supõe-se que há sempre algum desenvolvimento/texto pessoal, para estas questões. 

    ********************
    A última nau

    Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
    E erguendo, como um nome, alto o pendão
    Do Império,
    Foi-se a última nau, ao sol aziago
    Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
    Mistério.


    Não voltou mais. A que ilha indescoberta
    Aportou? Voltará da sorte incerta
    Que teve?
    Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
    Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
    E breve.


    Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
    Mais a minha alma atlântica se exalta
    E entorna,
    E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
    Vejo entre a cerração teu vulto baço
    Que torna.


    Não sei a hora, mas sei que há a hora,
    Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
    Mistério.
    Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
    A mesma, e trazes o pendão ainda
    Do Império.

    Fernando Pessoa, Mensagem, 19.ª ed., Lisboa, Ática, 1997
    Glossário (presente na folha de prova)
    aziago (verso 4) – que prenuncia desgraça.
    cerração (verso 17) – nevoeiro denso; escuridão.
    erma (verso 5) – solitária.
    pendão (verso 2) – bandeira longa e triangular.
    pressago (verso 5) – que pressagia, prevê ou pressente.


    Questionário
    Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

    1. Explicite três dos aspectos que, nos versos de 1 a 12, se referem ao mito sebastianista, fundamentando a sua resposta com elementos do texto.

    2. Caracterize, com base na terceira estrofe do poema, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau».

    3. Relacione o conteúdo da última estrofe com a pergunta «Voltará da sorte incerta / Que teve?», formulada nos versos 8 e 9.

    4. Identifique,  no poema, uma característica do discurso épico e uma característica do discurso lírico de Mensagem, citando um exemplo significativo para cada um dos casos.

    CENÁRIOS DE RESPOSTA

    1. Cenário de resposta
    A resposta pode contemplar três dos tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.
    Nos versos de 1 a 12, os aspectos que se referem ao mito sebastianista são os seguintes:
    –  o desaparecimento misterioso da «última nau» e de D. Sebastião – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião» (v. 1); «Foi-se a última nau» (v. 4); «Mistério.» (v. 6); «Não voltou mais.» (v. 7);
    –  a associação do desaparecimento da «última nau» e de D. Sebastião ao fim do Império 
    português – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, / E erguendo, como um nome, alto o pendão / Do Império, / Foi-se a última nau» (vv. 1 a 4); «Não voltou mais.» (v. 7);
    –  o pressentimento de desgraça associado à partida da nau – «Foi-se a última nau, ao sol aziago / Erma, e entre choros de ânsia e de pressago / Mistério.» (vv. 4 a 6);
    – as incertezas quanto ao destino de D. Sebastião – «A que ilha indescoberta / Aportou?» (vv. 7 e 8);
    –  as expectativas quanto ao regresso de D. Sebastião – «Voltará da sorte incerta / Que teve? / Deus guarda o corpo e a forma do futuro, / Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro / E breve.» (vv. 8 a 12).
    2. Cenário de resposta
    A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.
    De acordo com o conteúdo da terceira estrofe do poema:
    –  o povo português, perante o desaparecimento da «última nau», na qual seguia D. Sebastião, reage com desânimo (v. 13);
    – o sujeito poético manifesta uma viva crença no regresso de D. Sebastião e no Império que ele simboliza (vv. 14 a 18).
    3. Cenário de resposta
    A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.
    Na última estrofe, o sujeito poético responde afirmativamente à pergunta enunciada nos versos 8 e 9, apresentando:
    –  o regresso de D. Sebastião e do Império que ele simboliza como uma certeza obtida por intuição – «sei que há a hora» (v. 19); «Surges ao sol em mim» (v. 22); «trazes o pendão ainda / Do Império.» (vv. 23 e 24);
    –  o momento exacto em que esse acontecimento terá lugar como uma incerteza – «Não sei a hora» (v. 19); «Demore-a Deus» (v. 20); «Mistério.» (v. 21).


    4. Cenário de resposta
    A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.
    • Características do discurso épico:
    –  uso narrativo da 3.ª pessoa – «Foi-se a última nau» (v. 4); «Não voltou mais.» (v. 7);
    – importância conferida à História – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião» (v. 1);
    –  mitificação de um herói – «Deus guarda o corpo e a forma do futuro, / Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro / E breve.» (vv. 10 a 12).
    • Características do discurso lírico:
    –  expressão da subjectividade, evidente no uso da primeira pessoa – «minha alma» (v. 14); «em mim» (vv. 16 e 22); «Vejo» (v. 17); «Não sei» (v. 19); «sei» (v. 19) – e no uso da interjeição – «Ah» (v. 13);
    –  aproximação entre o sujeito e o destino nacional, patente na convicção intuitiva de que o mito será concretizado (vv. 16 a 18; vv. 22 a 24).
    ******************************
    NOTA: Parece pouco, mas, atenção aos critérios de correção/cotações (exemplo):

    2.  ............................................................................................................................. 15 pontos

    Critérios específicos de classificação
    •  Aspectos de conteúdo (C)  .................................................................................. 9 pontos

    Níveis Descritores do nível de desempenho no domínio específico da disciplina 

    nível 4
    Caracteriza, adequadamente, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências pertinentes à terceira estrofe do poema.
    9 pontos
    nível 3
    Caracteriza, adequadamente, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências não totalmente pertinentes à terceira estrofe do poema.
    OU
    Caracteriza, com pequenas imprecisões, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências pertinentes à terceira estrofe do poema.
    OU
    Caracteriza, de forma não totalmente completa, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências pertinentes à terceira estrofe do poema.
    7 pontos

    nível 2
    Caracteriza, adequadamente, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», sem fazer referências à terceira estrofe do poema.
    OU
    Caracteriza, com pequenas imprecisões, o modo como o sujeito poético e o povo 
    português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências não totalmente pertinentes à terceira estrofe do poema.
    OU
    Caracteriza, de forma não totalmente completa, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências não totalmente pertinentes à terceira estrofe do poema.
    5 pontos
    nível 1
    Caracteriza, de forma incompleta, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», sem fazer referências à terceira estrofe do poema.
    OU
    Caracteriza, com imprecisões, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», sem fazer referências à terceira estrofe do poema.
    3 pontos


    Para qualquer dúvida, não hesitem!

    Fico aqui até à 20h00.

    27 novembro 2015

    Mensagem (exame)

    Para 3ª feira
    Muitos já resolveram esta prova, como sugeri. Para quem anda mais distraído, vamos a isso!
    Não é das mais fáceis; por isso é importante: ler o poema 2-3 vezes, sublinhando e registando notas interpretativas; ler e reler as questões, sublinhando o que é pedido; não fugir do solicitado, procurando no texto as respostas, os sentidos;  relembrar matéria dada em aula e tomar notas na folha de rascunho - mas só se tiver relevância para ESTE POEMA (simbologia da Ilha; Rei-Sebastianismo; utopia-não lugar...).

     1
    AS ILHAS AFORTUNADAS

    Que voz vem no som das ondas
    Que não é a voz do mar?
    É a voz de alguém que nos fala,
    Mas que, se escutamos, cala,
    Por ter havido escutar.

    E só se, meio dormindo,
    Sem saber de ouvir ouvimos,
    Que ela nos diz a esperança
    A que, como uma criança
    Dormente, a dormir sorrimos.

    São ilhas afortunadas,
    São terras sem ter lugar,
    Onde o Rei mora esperando.
    Mas, se vamos despertando,
    Cala a voz, e há só o mar.

    Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, p. 75

    1. Refira a condição necessária à manifestação da voz e transcreva elementos do texto que justifiquem a sua resposta.

    2. Explique o sentido dos dois últimos versos do poema.

    3. Explique de que modo o conteúdo da última estrofe convoca o mito sebastianista.


     2.

    prova 639, 2ª fase, 2015-VER CRITÉRIOS DE CORREÇÃO/CENÁRIOS DE RESPOSTA

    Créditos da imagens: 
    1 - http://www.graci.pt/a-ilha-imaginaria-de-caras-ionut-graci/
    2 - www.ruigoncalvessilva.com

    25 novembro 2015

    Mensagem - a conquista das almas

    Como prometido, segue apanhado sintético das questões que temos estudado e debatido a propósito de MENSAGEM.

















    24 novembro 2015

    Os Maias

    "Os Maias", de Eça de Queirós





    "Os Maias", de Eça de Queirós
    (ENSINA RTP, com vv. especialistas da obra queirosiana)


    23 novembro 2015

    Jacinto - um D. Sebastião?

    }Era um outro Jacinto para quem o campo já não era insignificante.

    }Zé Fernandes percebeu que Jacinto não se contentava em ser o apreciador passivo dos encantos da natureza. Ele queria ter parte ativa, e surgiam-lhe grandes ideias:
    - encher pastos
    - construir currais perfeitos
    - adquirir máquinas para produzir queijos...

    Certo dia, ao percorrer as suas amplas terras, Jacinto conheceu o outro lado da serra: uma criança muito franzina viera pedir socorro para a mãe agonizante: “Esta gentinha é pobre!...Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!” (Silvério, cap. X)
    }As decisões de Jacinto tomaram novo rumo: começou a preocupar-se com o lado triste da serra,  passou a intervir socialmente, a reconstruir casas, a ajudar vida dos «seus» trabalhadores – a sua preocupação é que nas suas terras não haja miséria.
    }Mais tarde alarga o âmbito da intervenção e confessa que pretendia introduzir um pouco de civilização naqueles cantos tão rústicos.


    1880. Considerado por muitos o primeiro filme - imagens em movimento (os americanos ainda designam os filmes por «motion pictures»)




    }O povo da região começou a agradecer ao benfeitor e logo passou a circular a lenda que o senhor de Tormes era D. Sebastião que havia voltado para ressuscitar Portugal. 
    Haverá aqui uma crítica ao providencialismo português?

    Eça de Queirós (revisões)

    CRITICAR OU INTERVIR NA SOCIEDADE?

    Reflexão sobre o final do livro A Cidade e as Serras

    quase no final, Jacinto faz uma visita à família do seu melhor amigo, Zé Fernandes, em que  conhece uma das primas deste, Joaninha, por quem se apaixona, acabando por se casar e ter dois filhos. 
    Passados alguns anos chegam-lhe os caixotes com a tecnologia e os luxos vindos do 202 - o palacete de Paris - , mas agora apenas lhe interessam algumas coisas, como tapetes, cortinas, sofás e o telefone. Zé Fernandes compreende então que a viagem da Cidade para as Serras fora uma viagem de descoberta interior para Jacinto, o qual encontrara o equilíbrio na vida, entre a simplicidade da vida no meio rural e os luxos da cidade: “Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida (…)”. Jacinto percebeu que a sua equação para obter a felicidade (“suma felicidade = suma ciência x suma potência”) estava errada, não era a máxima sabedoria e desenvolvimento físico que lhe trariam a felicidade. 
    O narrador, Zé Fernandes, depois de passar mais algum tempo em Paris, volta ao campo definitivamente, convencido de que Jacinto estava certo: era bem melhor a vida no campo. Eça de Queirós explica a evolução de Jacinto através de uma metáfora, comparando-o a um ramo ressequido na cidade que quando foi plantado no campo brotou, ganhou raízes e tornou-se
    imponente dando sombra a muita gente, ou seja, no campo Jacinto viu a realidade em que viviam as pessoas e ajudou-as, começando pelos seus trabalhadores, dando-lhes todas as condições consideradas por ele essenciais para viver, como saúde, comodidade e até alguns luxos, tornando-se como um salvador entre os mais pobres: “Aquele ressequido galho da Cidade, plantado na Serra, pegara, chupara o humo do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam.”. Jacinto passou de ter nojo da Natureza e só pensar em si próprio a fazer parte dela e ajudar os outros.
     

    Com este final, Eça de Queirós critica a alta sociedade da sua altura por só prestar atenção e investir nas inovações tecnológicas e se guiar pela importância do estatuto social, enquanto, no seu ponto de vista, isso nunca lhes trará felicidade; esta resultará, sim, de ajudar os outros,  e de intervir no que os rodeia - na natureza e na sociedade - para que dê frutos e traga a verdadeira felicidade a cada um.

    João Saramago
    20 de novembro, 2015 15:12




    Eliminar

    19 novembro 2015

    A lição de Pessoa

    (...) Sou do tamanho do que vejo, disse F. Pessoa/Alberto Caeiro

    Somos aquilo que alcançamos. Ver enquanto compreensão do mundo. 
    Na sequência das questões levantadas, ficam dois documentos. O Jornal de Notícias/DINHEIRO VIVO publicou um filme que vos pode ajudar a estar um pouco mais informados

    O filme referido em aula

    15 novembro 2015

    Reflexões do Poeta

    Os trabalhos de reflexão crítica sobre a atualidade, inspirados nos versos camonianos das REFLEXÕES DO POETA selecionados por cada grupo, devem ser enviados 
    para o e-mail (usando o google drive) ou facultados através do envio do «link». 
    Serão apresentados e discutidos numa das aulas de 4ª feira.

    Sebastianismo



    "A literatura chorou, com a perda de D. Sebastião, o desfazer das esperanças desmedidas, a ruína dum povo que, havia pouco, deslumbrara o mundo com os Descobrimentos e a criação de um grande Império. Foi então que surgiu, como instintiva reacção, o sebastianismo.(...)

     

    Julgou-se que só a fé visionária poderia salvar-nos.(...)[ partir do século XIX] o sebastianismo foi passando da esfera política para os domínios literário e culturológico. 

    O sonho heróico de D. Sebastião, a sua morte na batalha, o mito do seu regresso e a quimera do Quinto Império inspiram poetas e prosadores."

    Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA




     O Mito Sebastianista

    Na Mensagem, o  sebastianismo é abordado como mito, que exprime o drama de um país  sem brilho, “à beira mágoa” a necessitar de acreditar de novo nas suas capacidades:
     “Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso d’El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade Imperial projectaram a sua fé de que a família se não extinguisse”.
     (Fernando Pessoa)

    D. Sebastião-ideia representa a hipótese de salvação e regeneração para o povo português; é a base da Mensagem: partir do mito como força/impulso para a vontade de transformar a realidade.

    ******************


    1ª e 3ª imagens - filme  Non ou a vã glória de mandar, de Manoel de Oliveira



    Cena: A batalha de Alcácer Quibir (1578)

    09 novembro 2015

    Os Lusíadas e Mensagem


    Aqui ficam algumas passagens selecionadas dos  textos de apoio sobre o diálogo de Mensagem com Os Lusíadas :


    “Tanto Camões como Pessoa, cantores da pátria, são poetas da ausência. Poetas do que foi ou do que poderá vir a ser.
    Mas as situações divergem (…).  No Camões épico predomina o elemento viril - a viagem, a aventura, o risco. (….) Homem de acção, e não só de inteligência, Camões ainda conheceu o império no concreto da sua grandeza e das suas misérias, era-lhe fácil ainda ter esperança, o D. Sebastião a quem se dirige é um jovem de carne e osso, vale a pena mostrar-se, exibir os seus préstimos, para que o Rei o distinga, confie nele, se lance na conquista do Norte de África levando-o consigo. Outro império terreno ainda parece possível, «como a pressaga mente vaticina», o próprio Velho do Restelo sanciona a aventura, e Camões prepara-se para cantar a nova empresa.
    O D. Sebastião da Mensagem, elaborado longamente pelo sebastianismo e pela humilhação, esse é o Encoberto, o Desejado, uma sombra, um mito. Pessoa sobrevive na aridez dos «dias vácuos», já lhe faltam razões para acreditar, o seu desejo está no limite, calcinado pela espera de quatro séculos. (…) O seu enorme anseio tornou-se insuportável, só pela palavra poética ilude o silêncio, o vazio.
    Em Camões, põem-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objecto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia, e daí uma concepção diferente de heroísmo. Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem, ou neles se desdobra, num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica definível pela decepção do real, pelo anelo absoluto, por uma loucura consciente, pela busca do que não existe, pela demanda que só tem finalidade em si própria, porque atingir é estagnar, ser vencido. Esta, na Mensagem, a lição do Encoberto.
    Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa inventou uma razão de ser, um destino, fugindo à angústia dum quotidiano absurdo, genialmente expresso por ele e por Álvaro de Campos [um dos seus heterónimos].
    Os Lusíadas [são], pela forma, que não só pela substância, uma epopeia clássica, narração onde se enlaçam a viagem de Vasco da Gama, a comédia dos deuses e a História de Portugal, mediante alternâncias e discursos dentro do discurso, uns retrospectivos, outros prospectivos, enquanto a Mensagem integra (…) 44 poesias breves, datadas de várias épocas e arrumadas em três partes principais: «Brasão», «Mar Português» e «O Encoberto». A primeira e a terceira partes ainda estão subdivididas: a primeira em «Os Campos», «Os Castelos», «As Quinas», «A Coroa» e «O Timbre», reproduzindo assim os elementos da bandeira nacional; a terceira os «Símbolos», «Os Avisos» e «Os Tempos». [É uma] arquitetura de sentido ocultista, [com um] carácter menos narrativo e mais interpretativo, mais cerebral, que Os Lusíadas.


    Os heróis da galeria da Mensagem funcionam como símbolos, elos duma trajectória cujo sentido Pessoa se propõe desvelar até onde o permite o olhar visionário. O assunto da Mensagem não são os portugueses ou eventos concretos, mas a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. 

    A atitude típica dos heróis da Mensagem é contemplativa e expectante: olham o indefinido, concentram-se na febre do além que o poeta encarna nos versos admiráveis de «A Noite»: «Com fixos olhos rasos de ânsia / Fitando a proibida azul distância». Depressa esta atitude significa uma ânsia metafísica, a busca duma Índia que não há. A primeira grande missão cometida por Deus a Portugal, desvendar o mundo, chegou ao seu termo: «Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez» - diz Pessoa em «O Infante». Então qual o destino nacional que vem anunciar? Que sentido tem o verso «Senhor, falta cumprir-se Portugal»? A inspiração da Mensagem, como foi lembrado, é ocultista, e o Império entrevisto no futuro uma aventura do espírito, viagem sem fronteiras ou limitações movida pelo amor do diverso e uma constante inquietação. Quando muito (a fala sibilina deixa supô-lo) um império da língua portuguesa, superior por natureza ao império terreno, «obscuro e carnal anterremedo» que o tempo destruiu. Na terceira parte do livro, o lema «Pax in excelsis» e a despedida, «Valete, Fratres», sugerem um projeto de fraternidade universal entre os homens. Talvez o que se aponta seja, na verdade, a utopia (…).”

    http://ensina.rtp.pt/artigo/infante-d-henrique-3/
    (carrega na imagem)


    Coelho, Jacinto do Prado, in ACTAS DO 1º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Brasília Editora - Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1978, disponível em Farol das Letras, http://faroldasletras.no.sapo.pt/mensagem_textos_teoricos.htm, consultado em 12 de novembro de 2011.