Total visualizações

30 janeiro 2014

Religião como redenção?

A partir da interessante questão levantada por alguns de vós sobre o papel da Religião, deixo informação adicional.
"A fé católica e os seus princípios morais regem as consciências e a actuação das personagens centrais do drama, família “honesta e temente a Deus” (Memória). (...)"
 
    



"Nesta abordagem, enumeremos três ideias. A primeira diz respeito à angustiante consciência do pecado, manifestada desde a cena inaugural. Atormentada pelos fantasmas do passado e pela sua consciência, D. Madalena vive em constante e profunda ansiedade. Não só teme dolorosamente o regresso do seu primeiro marido, como se sente uma mulher angustiada por ter amado ilicitamente o homem que viria a ser o seu segundo esposo, estando ainda casada com o primeiro (consciência de adultério em pensamento). Depois do expressivo monólogo inicial, é o velho e ciumento escudeiro que a atormenta, quer quando conversa com Maria sobre o passado e a esperança sebastianista, quer quando afronta a sua ama, ousando dizer-lhe que Maria era digna “De nascer em melhor estado” (I, 2). Mais tarde, é a própria D. Madalena que, justamente na cena anterior à aparição do Romeiro, confessa ao cunhado Frei Jorge a razão da sua infelicidade, partilhando assim o conflito interior em que se debate, e que a sua consciência cristã se lhe encarrega de lembrar[1].
     Dentro da mesma mundividência religiosa, a segunda ideia é a da desafiadora revolta protagonizada pela jovem Maria de Noronha nos instantes que precedem a sua morte por tuberculose. Ela irrompe pela Igreja de S. Paulo, em plena celebração, quando os seus pais se preparam para ingressar na vida conventual. Não a prepararam para tão duro golpe, nem lhe perguntaram a sua opinião. Apenas a confrontaram com aquele violento abandono, quando já se ouve o som do órgão e os frades de S. Domingos vão entoando os salmos penitenciais. Totalmente desvairada, ela interrompendo a “santa cerimónia”. Tenta demover os pais de tão inumana resolução, quando eles iam morrendo para o mundo, abandonando o seu antigo estado e abraçando a mortalha da vida religiosa e os novos nomes (Frei Luís de Sousa e Sóror Madalena): “Esperai: aqui não morre ninguém sem mim. Que quereis fazer? Que cerimónias são estas?” (III, 11).
     É neste contexto que, perante a inabalável resolução dos seus pais, surge a dolorosa invectiva de Maria de Noronha, num longo e patético monólogo, contra a falta de humanidade de um Deus justiceiro e vingador, que assim lhe rouba os seus legítimos pais: “Que Deus é esse que está nesse altar e quer roubar o pai e a mãe a sua filha? (Para os circunstantes.) Vós quem sois, espectros fatais?... Quereis-mos tirar dos meus braços? Esta é a minha mãe, este é o meu pai. Que me importa a mim com o outro?” (III, 11). O dramaturgo suscita assim a piedade para a única vítima inocente. As razões e os valores religiosos, sobretudo a indissolubilidade do casamento (ordem divina), vencem crua e desumanamente as razões do coração e o fruto de uma união apaixonada (plano humano). 
     Por último, cabe mencionar a resolução do casal (solução religiosa), tomada decididamente por Manuel de Sousa e aceite por D. Madalena. Acolhendo resignadamente os insondáveis desígnios de Deus, os dois decidem entregar-se à sua omnipotente e divina Providência. Recordando à esposa o caso dos condes de Vimioso, o marido é levado a reconhecer que a única solução (romântica) do drama familiar em que se vê mergulhado com a sua esposa reside na “sepultura de um claustro”[2].
 



O mesmo sentimento de aguda revolta de Maria fora momentaneamente partilhado pelo seu pai. Com efeito, no início do derradeiro Acto, aparece-nos um Manuel de Sousa profundamente transtornado pela dor, invocando Deus na sua desgraça, dominado apenas por um doloroso sentimento: a perdição de sua filha no “abismo da vergonha”, vítima inocente do drama familiar. Recebe, então, os conselhos de resignação e acatamento dos desígnios da divina Providência, por parte do irmão, Frei Jorge, que lhe recomenda o abandono do mundo: “E Deus há-de levar em conta essas amarguras. Já que te não pode apartar o cálix dos beiços, o que tu padeces há-de ser descontado nela, há-de resgatar a culpa”. Deus velaria paternalmente pelo seu pobre anjo: “Deus, Deus será o pai de tua filha” (III, 1). Fora, aliás, a própria mãe, momentos antes da cerimónia religiosa, que a oferecera a Deus como uma espécie de cordeiro imolado para expiar o seu próprio pecado
[3]. A filha desonrada e perdida tinha sido também o motivo da explosão de dor perante a anagnórisis incompleta (II, 13)[4].
     Depois da interrupção da cerimónia religiosa por Maria, a peça termina justamente com um sentimento misto de resignação e esperança cristãs: ser transitório, o homo viator confia plenamente a sua existência na misericordiosa mão de Deus. Todos rezam pela alma daquele anjo inocente que acaba de falecer, comungando do sentimento expresso pelo celebrante dominicano: “Meus irmãos, Deus aflige neste mundo àqueles que ama. A coroa de glória não se dá senão no Céu” (III, 12). Ao pecado do adultério de pensamento e à ilicitude da relação matrimonial, impõe-se a solução religiosa, como forma de repor a desejada ordem moral – ao crime sucede a expiação, através da Cruz redentora. "



[1] Relembremos a confissão sentimental desta mulher, heroína mais romântica que seiscentista: “Este amor, que hoje está santificado e bendito no Céu, porque Manuel de Sousa é meu marido, começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi... e quando o vi, hoje, hoje... foi em tal dia como hoje! – D. João de Portugal ainda era vivo. O pecado estava-me no coração: a boca não o disse... os olhos não sei o que fizeram, mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante... já não guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quase que mais deve a si do que ao esposo. Permitiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João.” (III, 10).

[2] “Madalena senhora! Todas estas coisas são já indignas de nós. Até ontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fé e seguridade de nossas consciências. Essa acabou. Para nós já não há senão estas mortalhas (Tomando os hábitos de cima do banco.) e a sepultura de um claustro. A resolução que tomámos é a única possível, e já não há que voltar atrás. Ainda ontem falávamos dos condes de Vimioso... Quem nos diria... oh! incompreensíveis mistérios de Deus!... Ânimo, e ponhamos os olhos naquela cruz!” (III, 8).

[3] “(Indo abraçar-se com a cruz.) – Oh! Deus: Senhor meu! pois já, já? Nem mais um instante, meu Deus? Cruz do meu Redentor, é cruz preciosa, refúgio de infelizes, ampara-me tu, que me abandonaram todos neste mundo, e já não posso com as minhas desgraças... e estou feita um espectáculo de dor e de espanto para o Céu e para e a terra! Tomai, Senhor, tomai tudo... A minha filha também?... Oh! a minha filha, a minha filha... também essa Vos dou, meu Deus. E agora, que mais quereis de mim, Senhor? (Toca o órgão outra vez.)” (III, 9).
[4] O drama íntimo de Manuel de Sousa, depois transformado em Frei Luís de Sousa, volta a inspirar outros autores, como Eugénio de Castro, em “A Fonte do Sátiro”, texto integrado nas Obras Poéticas, vol. II, Lisboa, Lumen, 1930, pp. 171-178. Aí nos descreve o atormentado dominicano que, já na sua velhice, é perseguido por visões concupiscentes: “Só o ligeiro Amor não se faz velho,/ Do berço à tumba dominando o homem!” (p. 178). A antiga e recalcada paixão por D. Madalena irrompe num momento de devaneio, através do diálogo com a figura de um Sátiro pagão – “visão impura” que recorda o famigerado e baudelariano poema “Morte do Santo” de Carlos Fradique Mendes. A violência da separação explica que Soror Madalena também acalente “Doces Lembranças duma vida bela/ Com as queixas da sua viuvez!” (p. 177).
  

Contra os fantasmas!


Para evitar que leiam «porcarias» mastigadas e cheias de «clichés» estafados, deixo um texto com informação para refletirem sobre os TEMAS que sinalizámos em aula:

- Dimensão crítica e pedagógica de FLS - ensinamento para o seu tempo (e para o nosso?)
- Liberdade individual - qual o papel dos homens no destino pessoal e das nações?
- Portugal - do tempo da história ao tempo de Garrett
- Sebastianismo - mito paralizante?
- Varrer os fantasmas - em nome do Portugal futuro

"(...)a obra de Garrett não deixa de ser uma crítica mais ou me­nos velada à política vigente, ressaltando a revolta e suble­vação de um homem (Manuel de Sousa) contra a tirania de um regime imposto, e em prol do elevado valor da liberdade e da in­dependência ideológica. Imagem ficcional do empenhamento político-ideológico do próprio Garrett, o heroísmo de Manuel de Sousa deve ser interpre­tado como um significativo acto de vontade, por parte de um homem que preza a liberdade contra todas as formas de tirania. "

Por fim, voltemos ao tempo recriado pela intriga da peça e à sua especular relação com a época da escrita. É muito significativa a associação do significado central do desas­tre da batalha fatídica no norte de África (4 de Agosto de 1578) e a génese do Sebas­tianismo com o presente da escrita da peça, como advertem vários críticos. De facto, a interpretação do Frei Luís de Sousa não pode esquecer a actuante presença do Sebastianismo e o que este mito do Desejado sig­nificava na concepção ontológico-cultural de Portugal como nação. Para Garrett, desencan­tado com o rumo da nação, umbilicalmente ligado a um passado quinhen­tista, e vivendo à sombra de uma pesada memória, o Portugal de Oitocentos só teria futuro liber­tando-se dessa persistente, infrutífera e mortal nostalgia passadista. Para compreendermos melhor esta abordagem interpretativa, detenhamo-nos brevemente em três ideias interligadas na interpretação negativa do Sebastianismo: a concepção garrettiana do tempo como devir; a relevância e significados do Sebastianismo na obra garrettiana; a peça como encenação da tragédia colectiva de um povo.

Com efeito, as crenças sebastianistas eram sinónimo de passadismo, de estéril paragem do tempo. Ao contrário, o movimento da História tem um sentido projectivo, é um devir que se não compadece com nostálgicos regressos ao passado. Regressar ao passado é sinónimo de morte do presente e de sério comprometimento do futuro. Como vemos, o imobilismo ou passadismo sebastianista constitui uma filosofia da história profundamente oposta ao modo como escritor concebe o tempo de um modo tão manifestamente dinâmico, sentimento expresso em várias obras.(...)
 
Como sabemos, ao longo da peça, são várias as referências expressas à mítica figura de D. Sebastião. Começam no primeiro diálogo entre Telmo e D. Madalena, que censura ao velho aio as suas crendices sebásticas: “(...) mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade!” (I, 2). Prosseguem as crenças sebastianistas na entusiasmada fala de Maria de Noronha, que, para grande aflição da mãe, acredita piamente no regresso do desejado monarca: “(...) é o outro, é o da ilha encoberta onde está el-rei D. Sebastião,
que não morreu e que há-de vir um dia de névoa muito cerrada... Que ele não morreu; não é assim, minha mãe?” (I, 3). Perante o raciocínio oposto da mãe, a jovem mostra-se convicta porta-voz do Sebastianismo e contra-argumenta:
“Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe: eles que andam tão crentes nisto, alguma coisa há-de ser. Mas ora o que me dá que pensar é ver que, tirado aqui o meu bom velho Telmo (Chega-se toda para ele, acarinhando-o.), ninguém nesta casa gosta de ouvir falar em que escapasse o nosso bravo rei, o nosso santo rei D. Sebastião. Meu pai, que é tão bom português, que não pode sofrer estes castelhanos, e que até às vezes dizem que é de mais o que ele faz e o que ele fala, em ouvindo duvidar da morte do meu querido rei D. Sebastião... ninguém tal há-de dizer, mas põe-se logo outro, muda de semblante, fica pensativo e carrancudo: parece que o vinha afrontar, se voltasse, o pobre do rei.” (I, 3).
 
 
De acordo com o importantíssimo texto disdascálico que antecede o II Acto, destacavam-se, pela sua singular localiza­ção, os retratos de três figuras simbólicas (D. Sebastião, Camões e D. João de Portugal), que merecem, sucessivamente, a curiosa e entusiasmada atenção de Maria, que, em diálogo com Telmo Pais, também alude às profecias sebásticas.
"Olha: (designando o de el-rei D. Sebastião) aquele do meio, bem o sabes se o conhecerei; é o do meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquela tão austera, mesmo dum rei moço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou a sério o cargo de reinar, e jurou que há-de engrandecer e co­brir de glória o seu reino! Ele ali está... E pensar que havia de morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que numa hora se havia de apagar toda a ousadia reflectida que está naqueles olhos rasgados, no apertar daquela boca!... Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal" (II, 1)
O mito do Encoberto é perspecti­vado, negativa­mente, como sinónimo de paragem no tempo, de irrealidade, de sacrifício do he­rói na ca­tástrofe fi­nal. O regresso do (falso) D. Sebastião, na figura de D. João, implica a alteração do rumo da história e o aniqui­lamento. Por isso, diante do espelho do seu retrato, o representante do Portugal morto e sebástico se define como Ninguém[1]. O Portugal do futuro não pode alimentar-se de estéreis utopias passadis­tas. É nesta "implícita condenação da expectativa sebástica" (Picchio, 1967: 117), que radica o aprovei­tamento mítico do dramaturgo:
"Assim Almeida Garrett vem colocar-se do lado daqueles que, antes ou depois dele, fizeram o pro­cesso do sebastianismo, vendo, na persistência do mito do Desejado, uma vã utopia, uma moral doentia e passiva ou uma forma alienatória de justificar novas ou antigas formas de poder" (Vieira, 1990: 389).
            Podemos assim dizer que o incêndio da casa de Manuel de Sousa, além de viril acto de patriotismosimboliza a resoluta busca de uma nova ordem e novo espaço para uma família assombrada pelo passado, isto é, uma nação que vivia à sombra de mitos, sonhos ou utopias. O regresso ao velho palácio de D. João de Portugal só pode representar um anacrónico e impossível regresso trágico ao passado. A História não pode regredir e imobilizar-se num pretérito mítico. O Portugal moderno tem de, edipianamente, matar o velho pai, para mudar o rumo da sua história (...). Nem que para isso tenha de se imolar pelo sacrifício da própria vida, como o faz, voluntariosamente, Manuel de Sousa. (...)
O drama de Garrett fala de Portugal, num momento em que ele se interroga pela boca de Garrett. É um país que vive um presente hipotecado, à sombra de um obcecado sentimento de saudade passadista e sebastianista. Neste sentido, é uma peça assombrada, habitada por dois fantasmas – um quase fantasma (D. João de Portugal) e um ou­tro fantasma mítico (D. Sebastião).

J. Cândido Martins, Para uma sistematização didáctica das leituras interpretativas do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett

(Univ. Católica Portuguesa – Braga)
 
 
Disponível, em PDF, em alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/zips/candid12.rtf

[1] Como demonstra Vasco Graça Moura (1999: 56), Garrett coloca uma genial coloquialidade ao serviço da intriga de profundo desenvolvimento trágico, com uma leitura subentendida, mas inegável – o sonho de gran­deza con­duziu Portugal ao pesadelo da desgraça nacional, a um certo sentimento de falência e de finis patriae, nomea­damente quando perspectiva pessoanamente o destino de Portugal, "este lúgubre país que já não é nada nem ninguém, nem tem sabido sê-lo, da dominação filipina aos so­bressaltos e sucessivos afundamentos do Constitucionalismo".
 


 

26 janeiro 2014

Frei Luís de Sousa - que sei eu?



 
Para os que não foram ao apoio, e sempre com as ressalvas necessárias, deixo a proposta de correção da ficha formativa.

No início da aula, serão esclarecidas dúvidas, se as houver.

 Esq. - Rui Morisson, no papel de Manuel, em Quem és Tu?, filme de João Botelho
Jacinto Ramos e Carmen Dolores, em FLS numa encenação de Jorge Listopad para a RTP

Frei Luís de Sousa - o peso do destino?

Carmen Dolores, como Madalena 

O prometido é devido - deixo as propostas de correção do Manual. 
Mas, como sabido, algumas das correções são limitadas e menos completas do que os vossos trabalhos e reflexões.  



20 janeiro 2014

A essência da ficção

Não percam este vídeo sobre «como construir um mundo ficcional» que é uma fabulosa forma de sintetizar a natureza das histórias e da própria literatura.
É um bom ponto de partida para um texto de desenvolvimente temático
 
(Contributo da prof. de Física...que é perita a descobrir o melhor da net)


16 janeiro 2014

15 janeiro 2014

Ciência e HN - rimam!

Vejam bem a nossa princesa - hoje, no Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa!


 
Parabéns, Adriana.
 
 
 

 
MAIS INFO:
O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) é um organismo público integrado na administração indirecta do Estado, sob a tutela do Ministério da Saúde, dotado de autonomia científica, técnica, administrativa, financeira e património próprio.
Fundado em 1899 pelo médico e humanista Ricardo Jorge (Porto, 1858 – Lisboa, 1939), como braço laboratorial do sistema de saúde português, o INSA desenvolve uma tripla missão como laboratório do Estado no sector da saúde, laboratório nacional de referência e observatório nacional de saúde.
O INSA dispõe de unidades operativas na sua sede em Lisboa, em centros no Porto (Centro de Saúde Pública Doutor Gonçalves Ferreira) e em Águas de Moura (Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas Doutor Francisco Cambournac).

13 janeiro 2014

Leituras de Frei Luís de Sousa


Bons textos convocam comentários inteligentes e diversificados. É, como vêem, o caso de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Quanto mais completa e rica for uma obra, mais leituras e interpretações interessantes permite; como se a sua imaginação, criatividade e riqueza convocassem o melhor que há em nós.


Dos comentários apresentados por alunos, anteriormente, deixo-vos uma selecção de respostas possíveis à questão número um, interessantes e distintas. Aguardo as vossas próprias reflexões e respostas
1. Quem é a personagem central?
  • A nosso ver, a personagem central é Maria de Noronha. Ainda que possa ser considerada a mais ingénua e romântica das personagens, Maria assume, desde o princípio, um carácter curioso, extremamente maduro e revela uma noção de realidade, relativamente às situações vividas, inimaginável. Além disso, Maria de Noronha é, sem dúvida, a demonstração de pecado (subjectivo ou não) de D. Madalena e de Manuel presente na obra. (Carolina, Lisa e Rute)
  • Na nossa opinião a personagem central da obra de Almeida Garrett é D. Maria sendo em torno da mesma que a acção se desenvolve, pois é a ela que todas as personagens tentam de toda a maneira proteger. Por outro lado, podia-se considerar D. Madalena personagem principal pelo facto de ter sido o seu pecado a origem de todo o enredo, assim como D. João de Portugal que sempre estivera presente na memória das personagens e que aparecera no final para mudar toda a história. (Ana Carolina, Cidália e Marisa)
  • D. João de Portugal, pois embora não esteja presente na maior parte da história, é constantemente evocado pelas personagens por meio de agouros e medos, e é ele que dá um fim à peça. (Ana Carolina, Ana Catarina e Cláudia)
  • A nosso ver, a personagem central de Frei Luís de Sousa é Dona Madalena pois a história gira em redor de si, através da incerteza da sobrevivencia ou não de D.João de Portugal (seu antigo marido), tendo refeito a sua vida com outro senhor, acabando por ter uma filha deste mesmo, D.Manuel de Sousa Coutinho. (Carlos, Débora e Joana)
  • A personagem principal de Frei Luís de Sousa é Dona Madalena, uma vez que os acontecimentos da história giram à volta do que lhe acontece. Ou seja, apesar do aparecimento de Dom João de Portugal e respectivo desencadeamento, Dona Madalena poderia ter mudado o seu destino se não tivesse casado com Manuel de Sousa, ficando sempre com a angutiosa dúvida da morte do seu primeiro marido. Numa outra perspectiva, Dom João de Portugal pode ser considerado a personagem principal, visto que, se o seu destino tivesse sido a morte, o desenrolar da história teria sido completamente diferente. Isto é, sem esta personagem, o principal acontecimento que "move" a história, e a faz, não aconteceria. (Daniela, Beatriz, Catarina)
Brevemente publicarei os comentários aos vossos textos, para rectificar ou corrigir alguns (poucos, felizmente) erros. Atenção, desde já:
- D. Madalena espera 7 (sete) anos antes de casar de novo;
- O que precipita a mudança de casa é o incêndio que Manuel Sousa Coutinho ateia ao seu próprio palácio para que os espanhóis aí não se instalem ; o pobre do D. João não tem culpa... ele ainda não aparecera! Claro que quando regressa vai ter àquela que fora/é a sua casa, onde agora reside a nova família de Madalena.


Peter Blau, alemão, artista de luz



12 janeiro 2014

Almeida Garrett e o Frei Luís de Sousa


O último poema escrito por Almeida Garrett encontrado no espólio existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e dado a público em 1999.



Eu disse a Deus: – Que importa,
Senhor, à tua glória que sobre mim se feche a eterna porta
do túmulo, e não fique mais memória
deste verme de um dia na terra que o sumia?
(...)
Na imensa natureza
a voz do homem é nada.


3 de Agosto de 1853

Respondam ao seguinte, através de "Comentários"
  1. Quem é, a vosso ver, a personagem central de Frei Luís de Sousa?
  2. O que preocupa e aflige D. Madalena desde o início (afinal tem tudo para ser feliz...)?
  3. Se estivessem no lugar de Maria como acham que reagiriam?
  4. Há algum(a) culpado(a) na peça? Quem? Porquê?
  5. D. João de Portugal é: Um herói injustiçado e traído? Um fantasma que não deveria ter voltado? Um pobre diabo, patético e deslocado no tempo e no espaço?

07 janeiro 2014

Telmo e o Romeiro - a verdade!


Quem és tu?

Vejam as cenas com atenção, sobretudo o monólogo de Telmo e o diálogo com Romeiro/D. João


Reparem no patetismo da entrada de D. João, quando este supõe que as palavras de Telmo
se referem a si próprio. Não percebeu ainda que o «anjo» por quem Telmo pede é Maria. Inspira, pois, tristeza e piedade.

No diálogo, o ROMEIRO assume que já nada «morreu» no coração daqueles que amava.

TELMO percebe que entre a fidelidade e o amor, escolheu o segundo. No seu coração Maria pesa já mais que o menino que criara - agora o velho destroçado que está na sua frente.





João Villaret ... Telmo Pais
Tomás de Macedo ... Frei Jorge da Sousa Coutinho
Barreto Poeira ... O Romeiro/D. João de Portugal


Filme Frei Luís de Sousa, de António Lopes Ribeiro









Ficha Técnica



Deixem Falar as Pedras, de David Machado



Vamos ler o livro de David Machado!
 
 





 
Há vários exemplares na Biblioteca da escola e também há na Biblioteca Municipal.
 
Também podes comprar o livro, ed. Leya, nas livrarias ou pela internet. 




SINOPSE
No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.


Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

In WOOK, http://www.wook.pt/ficha/deixem-falar-as-pedras/a/id/10691738

 

CRÍTICA
por
João Bonifácio

Mais do que uma boa história, um livro que se arrisca pelo passado do país
 
De cada vez que pegamos num romance, é sabido, estabelecemos um acordo tácito com o autor: suspendemos a descrença e aceitamos o faz-de-conta. Pelo que as melhores aberturas são, por norma, aquelas em que nem sequer nos lembramos de que há esse acordo e simplesmente avançamos.

Nisso, "Deixem Falar as Pedras", terceira obra e segundo romance de David Machado, é exemplar: à primeira frase - um simples "As minhas mãos apertam o pescoço do António com força e imediatamente me lembro de uma das histórias do meu avô" - sucumbimos à tentação normalmente atribuída apenas a porteiras mas omnipresente na raça humana: saber o que está a acontecer na vida dos outros. Reparem na seguinte sequência. A terceira frase do primeiro parágrafo é: "Sinto o sangue do António vibrar-me nos dedos, da mesma forma que um dia o inspector Dias sentiu o sangue grosso do meu avô pulsar-lhe através da pele". No segundo parágrafo, o narrador afiança que "nem sequer devia estar" ali, porque regra geral àquela hora vai "ao quiosque em frente da escola consultar as páginas da necrologia nos jornais", justificando assim o hábito: "Depois daquilo que aconteceu ao meu avô (por minha causa) é o mínimo que posso fazer". Percebemos que a voz é de um adolescente, queremos saber por que raio está a apertar o pescoço ao António e o que é que isso tem a ver com o avô e porque é que o narrador diz que o que aconteceu ao avô é culpa sua.

A primeira grande mais-valia de "Deixem Falar as Pedras" reside aqui: uma consciência apurada dos efeitos de narrativa e do "timing" de distribuição da informação, do valor das micro-histórias e do respeito pelas personagens secundárias - visível quando, mais à frente, um homem garantir que escapou três vezes à morte porque tem garganta de tubarão.

Estas qualidades seriam suficientes para contar uma boa história, mas o livro arrisca pela memória do país adentro e gradualmente vai-se tornando um trabalho sobre a identidade, a memória, a distância entre o país rural e o país urbano, o pré e o pós-25 de Abril.

Narrado por um adolescente obeso, enamorado de uma vizinha anoréctica que partilha com ele o amor por bandas aproximadas do metal, o romance começa a convencer ao conseguir encontrar uma voz credível para este moço. Intuímos que por trás dos seus demónios está uma fractura que reside na família - Machado, com maturidade, não mostra a "falha" familiar de forma pornográfica, antes acumula pequenos indícios. A narrativa principal surge por elipse, quando o miúdo recorda a vinda do avô paterno de Lagares para Lisboa, contra a vontade do próprio pai. O avô é o elemento disruptor: tem dedos a menos numa mão, diz palavrões, não respeita as regras da casa, conta histórias de sangue e terror. Este avô exerce um imenso fascínio sobre o neto, que assume a dor que este carrega. Quando o avô desiste da sua vingança e passa os dias a ver telenovelas (delicioso humor cruel), o neto está pronto a, por assim dizer, dar à narrativa do avô um fim digno.
 
Tudo se reporta ao tempo da outra senhora, na altura em que o avô estava noivo. Na madrugada do seu casamento, acorda com o barulho de tiros - um suposto (é essencial notar que tudo neste romance é "suposto") bando de guerrilheiros da Guerra Civil de Espanha que se havia acantonado junto à sua aldeia estava a ser atacado pela polícia. O irmão do avô passara a noite com uma das raparigas do ajuntamento, facto que foi transmitido às autoridades de forma deliberadamente deturpada - e em vez do irmão é ele que é enclausurado. Este é apenas o primeiro de um conjunto de acasos rocambolescos (quando não doentios) que atiram o avô para um vida de desgraças consecutivas.

Machado, escritor consciente das tramóias da arte da narrar, sabe que tem de haver uma justificação para o neto nos contar a história do avô, pelo que cria um "motivo", o mais óbvio e eficaz deles: a necessidade que o neto sente de reportar a verdade à ex-noiva do avô. Ao contar o passado do avô, o neto dá-nos, para cada facto, as várias versões que correram na época: a do avô, as que iam na boca do povo, as que ficaram registadas em livros oficiais (como os da polícia).

É aqui que o livro se torna maior: o neto "herda" a maldição do avô, torna-a sua. No entanto, o que ele toma como seu é um pedaço de história visto pelos olhos do avô (que podem muito bem distorcer o real). Pelo que nunca sabemos exactamente onde reside a verdade.

Há uma espécie de moral triste nisto: a nossa identidade é o rosto que as nossas memórias desenham; e no entanto somos capazes de escolhê-las, distorcê-las ou até de "viver" as dos outros e assim transformar os contornos do Eu. (Se isto fosse geometria poderíamos chegar a um corolário: qualquer vitória que obtenhamos sobre o passado é uma vitória ilusória; a vitória só deve ser procurada em nome do futuro. Mas, curiosamente, isto não é geometria.).
 
Há algo de profundamente humano nesta história de pides e fascismos, de amores e azares, de como se perde uma vida lá onde as cabras pastam e tantos anos depois se influencia o futuro de um neto. Algo que está para lá de técnicas de escrita, algo que - temo - o país que aqui está retratado não terá tempo nem paciência para olhar com atenção.

In Crítica Ípsilon, PÚBLICO
***

-  À VOLTA DOS LIVROS -
Encontro com o Escritor David Machado

Auditório da Câmara Municipal TV, 12 de fevereiro, 4ª feira
 
10º e 11º
 
Conversa sobre o livro Deixem Falar as Pedras,
o autor, a ilustração, a edição.