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07 dezembro 2017

Cinema na Henriques!

Numa colaboração entre os docentes de Português (12º ano) e a Biblioteca Escolar, regressa o Ciclo de Cinema, desta vez destinado aos alunos do 12º ano. 
Haverá um guião e a nossa Bibliotecária fará uma breve apresentação do filme. 

Consulta a tua professora de Português para saberes a sessão que está destinada à tua turma 
(1ª sessão - às 9h00;  2ª sessão - às 11h00)

30 novembro 2017

Alberto Caeiro - "O Guardador de Rebanhos"

- vê no asas-da-fantasia a relação entre Caeiro e Cesário Verde -

De acordo com o pedido, deixo o 1º poema de "O Guardador de Rebanhos" que vos permite apreciar mais claramente a ideia discutida em aula: «Caeiro - o pastor por metáfora»
Pintura de Vicent van Gogh

I - Eu nunca guardei rebanhos,


I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 
Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro 



8-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 21.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.


Fonte: Arquivo Pessoa

28 novembro 2017

Alberto Caeiro (filme de apoio)


Alberto Caeiro - síntese de apoio

 Síntese de apoio

Alberto Caeiro e a Natureza

Ficam alguns versos, não presentes no Manual, mas muito relevantes para perceber a poesia de Alberto Caeiro. Destaca-se, em cada poema, o conjunto de versos mais fortes e fáceis de lembrar.
 Quinta da Aguieira,.Noémia Santos
Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos Haja.
 In Poemas Inconjuntos

 III 
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde
.
 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores
,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
 


In O Guardador de Rebanhos
 XXXIX 
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
 

Porque o único sentido oculto das cousas 
É elas não terem sentido oculto nenhum,  
É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

In O Guardador de Rebanhos

Quinta da Aguieira. Noémia Santos
XXIII
O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta... 

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ...
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço
,
Para não parecer que penso nisso...)

 In O Guardador de Rebanhos
XXXI 
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque não me aceito a sério
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...

XXXVIII
Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens

Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu, 
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro
in O Guardador de Rebanhos
 Quinta da Aguieira. Noémia Santos

27 novembro 2017

Poema de F. Pessoa (Que noite serena!) - correção do questionário

1. Os traços caracterizadores do passado, tal como é evocado pelo sujeito poético, surgem associados a um tempo de serenidade e brandura - «suave, todo o passado», de aconchego afetivo - «O terceiro-andar das tias», de calma - «sossego de outrora, /Sossego de várias espécies». Tudo é agora percecionado como «bom e a horas», num estar certo e seguro, ausente do tempo presente - «hoje morto». Todas estas evocações ganham sentido com a caracterização que o poeta faz da infância, associada à leveza da inconsciência - «A infância sem o futuro pensado», por contraste com o presente. 
 
2. A cantilena inicial, lembrança de possível canção de embalar da infância, nos seus quatro versos de redondilha associados a um quadro de serenidade e embalo, com o uso do diminutivo «barquinha», depois reforçada pelo desamparado verso 13 - «Que noite serena, etc.», num momento do poema já associado ao presente,  remetem para um motivo comum no ortónimo - uma canção, uma música, um som - que presentificam o passado, como em «Pobre velha música», recordação vaga, simultaneamente doce e nostálgica ou dolorosa, porque de um tempo para sempre perdido.


3. (O importante seria a forma de responder; associar à temática referida, à dor e nostalgia de constatar a perda desse bem...; necessidade de esquecer -  Lembro-me mas esqueço)


4. Por contraste com a imagem rememorada desse passado, o presente é marcado pelo desassossego, a falta de «De um bem e de um a-horas próprio», a nostalgia de um tempo de suavidade, num tempo de desamparo e dúvida - «Meu Deus, que fiz eu da vida?»; os vocábulos associados ao presente são negativos e desperançados - «hoje morto» (o «bem») e a repetição do sentimento de dor, no verso 13. A explicação está no último verso - «Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.», excesso de dor causada pelo «pensar» intromissor e involuntário («parem com isso»), que contrasta com a caracterização do tempo querido da infância.


F. Pessoa ortónimo (correção do questionário)

Resposta aos pedidos.
Pg. 43 - cenários de resposta

1. As dicotomias presentes no poema são passado/presente, sonho/vida real e jovem/adulto. Através destes elementos, o sujeito poético opõe o passado ao presente, uma vez que o sonho associado a esse tempo irrecuperável veio a dar lugar à estranheza diante da vida e do ser.

2.
No passado, ainda que a vida fosse «má», é  percecionada como «serena»; no presente, o sujeito classifica a vida como «alguém estranho»; é um tempo marcado por uma vivência sem serenidade, com elementos negativos: «a pena, ou a mágoa, ou o cansaço» (v.9). O sonho está ausente.

3. Os canteiros de jardim remetem para a beleza, para a harmonia e fragilidade, própria das flores; estes elementos são uma metáfora para os momentos felizes do passado. O verbo «pisar» adquire, assim, um valor negativo e violento, significando que o presente esmaga, interrompe, anula o passado.

4. A adjetivação (....) permite a caracterização da vida do sujeito poético no passado; a enumeração, com o recurso ao polissíndeto - «a pena, ou a mágoa, ou o cansaço» (v.9) reforça o estado de espírito negativo, sem uma única razão específica (daí a conjunção disjuntiva «ou»), vivido pelo «eu» no presente.

5. No verso 1 - duas orações subordinadas adverbiais temporais.
No verso 8 - oração subordinada adjetiva relativa restritiva.

6. Valor disjuntivo.

7. Conversão.

24 novembro 2017

Fernando Pessoa e Álvaro de Campos (teste de Português 12º ano)

 Fernando Pessoa ou heterónimo(s) por si criados, o importante na análise 
e interpretação de poemas é ler, ler o que o poeta escreveu. E pensar.

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro-andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem o futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a-horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 121.
 1. Refira os traços caracterizadores do passado, tal como é evocado pelo sujeito poético. 

2. O poema inicia-se com a citação de versos de uma cantiga, parcialmente retomada no verso 13. Explique a sua função no poema. Justifique.

3. Comente o efeito expressivo da repetição - "E dói, dói, dói...", no contexto do poema e da temática abordada. 
4. Caracterize os sentimentos do sujeito poético em relação ao presente. 

22 novembro 2017

Metropolis (restoration trailer)

FICÇÃO: como o cinema de ficção científica viu a Grande Cidade, a mecanização, o futuro
(filme de Fritz Lang, 1927. Em Portugal foi visto pela primeira vez em 1928)


London Traffic 1910 AKA Traffic Scenes (1914-1918)


Old New York, 1910's - Film 19800


Álvaro de Campos (Linguagem e estilo)

Maravilhoso e Novo  Século XX 










Por quê esta linguagem? Porque: 
  • Contra a tradição, o saudosismo e a melancolia, há que valorizar o novo, o emergente, o dinamismo, a acção
  • Exaltar o mundo moderno e as suas conquistas: máquinas, obras de engenharia, movimento, voragem, velocidade
  • Retratar o espaço urbano, por excelência – cidades, ruas, avenidas, portos, cafés, teatros...
  •  Num mundo pleno de sensações novas e intensas e de planos que se cruzam/ interceptam, a arte tem de traduzir essa febre, essa voragem, essa mistura de barulhos de máquinas, 'perfumes' de óleos e carvões, planos e objetos nunca vistos...
  • A linguagem – nas artes plásticas e na literatura procura traduzir estas realidades novas, este mundo belo à sua maneira – uma beleza “totalmente desconhecida dos antigos”

Álvaro de Campos - (filme de apoio)

Para os que já vão mais adiantados, consolidar o que já trabalhámos, vendo o filme
e registando informação nova.

20 novembro 2017

Fernando Pessoa e eu -"o que fui [...] o que só hoje sei que fui"

 Eis os testemunhos do 12º A na resposta ao desafio de memória e reflexão - Fernando Pessoa e eu - tomando para mote o verso de Álvaro de Campos, no poema  "Aniversário":  
"o que fui [...]o que só hoje sei que fui".
Tomar a palavra...uma aula - mesmo - para recordar

Fernando Pessoa - "O que fui [...] o que só hoje sei que fui" - 8

O que fui? Fui as lembranças que tenho hoje de ouvir a minha mãe a contar histórias que normalmente já sabia de cor; contudo, ouvia sempre como uma canção de embalar até adormecer; de imaginar inúmeras aventuras, cenários, histórias com simples pedaços de plástico e metal com quatro rodas que me entretinham por horas naquele mundo só meu; dos Verões passados na casa dos meus avós, repletos daquelas coisas que por mais banais só os avós proporcionam, aquele conforto e carinho; as idas à praia com os meus pais, em que todos os grãos de areia se tornavam no maior parque de diversões; o simples cheiro a torradas pela manhã, evidenciando que a minha mãe tinha alcançado o feito de acordar ainda mais cedo que eu, fazia-me pairar até à cozinha de braços abertos antecipando aquele abraço tão doce... O jeito de como tudo era tão simples, e o mais simples me fazia tão feliz...

E são, como estas, as fotografias soltas de um grande álbum que se vêm revelando na minha memória recordando-me da infância que, na verdade, nunca conseguirei conhecer. Contudo conheço aquilo que marcou aqueles tempos em que não só a memória mas o coração me dizem que fui feliz. 
 André César, 12º A

Fernando Pessoa - "O que fui [...] o que só hoje sei que fui" - 7

Sou filha única por isso muitas vezes não tinha com quem brincar, logo os livros ilustrados tornaram-se um mundo para mim. Não gostava muito de bonecas, preferia explorar os mundos,animais e personagens que ganhavam vida nas páginas dos livros.
Os meus pais ofereciam-me livros sobre diversos assuntos, os primeiros que me recordo foram os livros da coleção Anita, depois seguiram-se os livros sobre o mundo marítimo, aves, flores, florestas e atlas sobre os continentes e respetivas culturas.
Sempre que recordo a minha infância, grande parte das memórias estão relacionadas com estes mundos ilustrados; quando os via juntamente com a minha mãe e quando passava tardes a observar pormenorizadamente cada desenho como se estivesse a tentar encontrar algo de novo, algo que ainda não tinha descoberto.
Estas lembranças levam-me de volta para uma altura de curiosidade, felicidade e principalmente de imaginação, que me fizeram despertar o interesse pela leitura.
                                                                                                                    
Fátima Santos n°8 12°A

Fernando Pessoa e eu -"o que fui [...) o que só hoje sei que fui" - 6

Tenho uma memória vívida do meu aniversário de 3 anos; na altura andava em uma escola privada onde minha mãe trabalhava; ao entrar na sala de aulas recordo que fiquei animado por saber que ia comer doces e todas essas tradições de festas, mas lembro ainda de ficar mais animado ao descobrir que quem fazia anos era eu! Esta memória ficou-me guardada pois foi quando ganhei minha primeira bicicleta e é uma das três memórias que tenho do meu pai.
São poucas as memórias que tenho do meu pai, e as outras 'memórias' que tenho dele são contos de mãe.
Apesar de hoje me encontrar a 7487 km da origem destas memórias, carrego comigo um álbum de fotografias que me permitem recordar de todas estas memórias de infância.
Rômulo Silva, 12ºA

Fernando Pessoa e eu -"o que fui [...) o que só hoje sei que fui" - 5

Quando era mais nova, tinha muito o hábito de perder lápis e canetas na escola, pelo que a minha mãe me punha de castigo pelos dias que correspondessem aos lápis que tinha perdido. Proibia-me de ver televisão e de brincar com as minhas irmãs, mas eu tinha outra forma de me divertir: os livros. Este método resultou até a minha mãe se aperceber, e me proibir, também, de ler enquanto estava de castigo.
Os livros têm sido sempre um refúgio para mim - agora são livros policiais e se ficção científica; na infância, eram livros de contos de fadas (literalmente).


Era uma coleção de mais de 150 livros sobre duas meninas, a Cristina e a Raquel, que ajudavam fadas a cumprirem as suas missões - nunca cheguei a completar a coleção inteira. Porém, mesmo com os relativamente poucos 30 livros que consegui ter, fazia o que chamava "Concurso de Beleza": naquelas noites em que me era difícil adormecer (foram demasiadas), pegava nos meus livros, num papel e numa caneta e estabelecia parâmetros que as fadas tinham de cumprir para poderem ganhar o concurso. Passava horas nisto, e embora tenha feito este concurso imensas vezes, ganhava sempre a mesma fada.
                                                                                                                     Filipa Tavares, n°9, 12°A

Fernando Pessoa - "O que fui [...] o que só hoje sei que fui" - 3

A infância é uma época da qual me lembro com muito carinho, por todos os aspetos nos quais a memória não me falha. A simplicidade das brincadeiras, a alegria de quem não reconhece o perigo, a ignorante felicidade, a inocência irresponsável e no rosto um sorriso despreocupado. Durante esse período da vida tudo era feliz, toda a família emanava uma aura alegre e tão cheia de vida, guardo tudo isso com saudade, saudade do que já não volta. Agora, descobri que muitas vezes essa felicidade não era genuína, existiam sempre aspetos que manchavam de preocupação e tristeza a sua pureza, e que essa máscara serviu para nos proteger, a nós rebentos, do mundo cá fora.

Hoje olho para trás e vejo que é verdade que só damos valor às pessoas quando as perdemos, que quando as queremos valorizar, já é tarde, a vida ensinou-me isso cedo, na altura ideal acredito; no entanto, isso não anula a dor e o sofrimento que senti, e que vi ser sentido, um dos momentos mais marcantes desses dias foi ver o meu pai a chorar, pela primeira vez, aos seis anos de idade; lembro-me de estar em casa, sozinho, deitado na cama, à espera, preparando-me para o inevitável. Eu sabia o que se estava a passar, foi tudo tão claro, assim que ouvi o carro a chegar, levanto-me, eu e a minha esperança de que tudo estivesse bem; assim que a porta se abre, esperança era a última emoção que me apareceria no pensamento, lembro-me das exatas palavras que abandonaram a boca da minha mãe, de voz destroçada, porque o meu pai não tinha forças para falar: "Diogo, o avô já não está mais connosco", e foi naquela idade, neste dia, neste instante, que eu aprendi que não era tudo alegrias. 

Apesar de ao virar de cada esquina se esconder uma desgraça, a infância é isso mesmo, aprender a superar a dor com os meios que temos. E no final do dia, posso olhar novamente para trás e dizer que fui feliz, e sou feliz ao relembrar-me destes obstáculos que ultrapassei no meu percurso, que me tornam no que sou hoje e no "que só/ hoje sei que fui" 
Diogo Fernandes, 12º A